Longe vão os tempos em que Herman José dava os primeiros passos da sua carreira, tocando viola baixo ao lado do maestro Pedro Osório. Portugal tinha acabado de chegar à democracia, e a reboque do espírito festivo da época acabou arrastado até ao então renascido Parque Mayer, onde era suposto só tocar e cantar na revista “Uma No Cravo, Outra Na Ditadura”.
Durante os ensaios, os autores José Carlos Ary dos Santos e Cesar de Oliveira reconheceram-lhe qualidades interpretativas, e deram-lhe pequenas ‘pontas’, cujo sucesso imediato fez com que o já então famosíssimo Nicolau Breyner apostasse nele em 1975 como parceiro na dupla “Feliz e Contente” - o seu primeiro grande êxito em disco.
O seu segundo êxito musical dá-se com uma versão de um tema do conjunto espanhol “Desmadre 75”, de seu nome “Saca El Guisky Cheli”, que o maestro Thilo Krassman descobriu e lhe propos gravar na versão portuguesa de César de Oliveira “Saca o Saca Rolhas” – o grande êxito do verão de 77 em Portugal.
O lado B desse mesmo single, a “História do Capuchinho Rodrigues Monteiro”, acabou por virar objecto de culto junto de gerações de tunas académicas. É em sua honra que o Herman a recupera neste novo disco “Adeus Vou Ali Já Venho”.
Curiosamente, nos tops do mesmo ano, brilhava um verdadeiro hino humorístico-musical: a “Caldeirada” de Alberto Janes, que a grande Amália Rodrigues imortalizou, e que Herman regrava agora no melhor estilo “swing”, sem com isso beliscar a imensa ironia da sua narrativa, cuja actualidade se mantem inalterada.
Para além destes dois temas, mais dez compõem o disco “Adeus Vou Ali Já Venho” de Herman José, todos eles com imaculadas orquestrações do seu fiel maestro e amigo Pedro Duarte, cuja colaboração arrancou na RTP no saudoso programa “Parabéns”, encomenda – ironia do destino – do então jovem director de programas José Eduardo Moniz.
Com a edição de “Adeus, vou ali já venho”, somos também surpreendidos com deliciosas recreações de temas de sua autoria feitos para televisão, como “Hora H” e “Casino Royal”, ou a balada “Podia Acabar o Mundo” (estes dois últimos em co-autoria com Rosa Lobate de Faria), que quinze anos depois da sua criação, Nuno Santos escolhia para título e genérico de novela.
Com igual rigor, Herman regrava temas escritos propositadamente para si por Carlos Paião, como “Mentirosa”, “O Meu Automóvel”, “Apaixonada” (que levou em 1984 a um Festival da Canção na Bulgária, cujo encerramento esteve a cargo de Roy Orbison), ao polémico “Tango a Portugal”, irónica e caustica critica ao nosso ‘País de tanta coisa por fazer, que por ninguém querer, é nosso’, e que 20 anos depois da morte desse génio da escrita, se mantém inquietantemente actual.
Mas verdadeiramente surpreendentes, são os temas inéditos com letra e musica do próprio Herman. Compostos e afinados desde Janeiro deste ano, em muitas horas de “lay-off” televisivo, são três as ‘pérolas’ que vão dar que falar:
“A Praia é Linda”, é tema candidato à ‘pole position’ das canções mais populares deste verão, de humor quase picante e narrativa deliciosamente surrealista, recupera um rigor de escrita humoristica de que não nos lembravamos desde a saudosa ‘Canção do Beijinho’.
“Amor Avariado”, balada muito ‘smooth jazz’, composta a pensar num dueto com uma ‘velha amiga’, cuja inviabilização fez correr muita tinta, e que aplica o conceito de ‘aceitam-se devoluções’ ao amor. Uma espécie de ‘agua tónica’ musical, que primeiro se estranha, e mais tarde se entranha. Imaginamos não andar muito longe da verdade, ao apostar que o seu ‘mood’ está condenado a colorir um seriado ou uma novela.
Finalmente, o tema que dá o título ao disco: “Adeus, Vou Ali Já Venho”. Um blues, onde as orquestrações do maestro Pedro Duarte, e o som poderoso de uma ‘mini big-band’ composta por oito dos mais notáveis músicos portugueses, melhor se faz notar. Uma irónica paródia à moda das plásticas, e no refrão, a criação de um chavão que promete ser tão ou mais pegajoso que os famosos ‘Não Havia Nechexidade’, ‘Fantástico Melga’, ‘Resmas de Gajas’, ou ‘Olá Cambada’: “Adeus, Vou Ali Já Venho”.
Este disco, é mais do que só um ‘capricho de vedeta’. É uma homenagem de um ‘homem dos sete instrumentos’ com 35 anos de carreira, a uma das formas artísticas que mais valoriza: a música, servida por uma escrita imaculada que se foi apurando ao longo de muitos anos de guionismo, e por uma técnica vocal que centenas de espectáculos ao vivo ajudaram a temperar.
Neste disco, o Herman humorista, compete com o Herman / cantor, e não se consegue dizer qual dos dois fica a ganhar.